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Professora da UFBA fala sobre o Dia da Consciência Negra e experiências no NEGRAS

20 de novembro de 2020, Comentários

O dia 20 de novembro é marcado pela sua representatividade, trazendo a cada ano discussões sobre igualdade, respeito e solidariedade em uma data que marca o Dia da Consciência Negra. Para discutir sobre o assunto, convidamos a nutricionista Liliane de Jesus Bittencourt, professora da Escola de Nutrição da UFBA e coordenadora do Núcleo de Estudos em Gênero, Raça e Saúde (NEGRAS), em Salvador. Confira entrevista:

Sobre os estudos acerca de Gênero, Raça e Saúde, qual o foco? como contribui para a Consciência Negra?

O Núcleo de Estudos em Gênero, Raça e Saúde – NEGRAS foi criado em 2011 para ocupar uma lacuna existente na academia, mas especificamente na Universidade Federal do Recôncavo da Bahia, sobre a discussão que promovesse a intersecção entre raça e gênero com a saúde. Nessa perspectiva, o NEGRAS vem contribuindo para o despertar de uma consciência cidadã de estudantes e profissionais de saúde, na medida em que pauta essa discussão dentro das universidades onde atua (UFRB e UFBA), bem como em outros espaços formativos, como a Escola Baiana de Medicina e Saúde Pública, escolas estaduais e municipais de ensino médio e fundamental. Não há como ser um profissional de saúde atuante e resolutivo sem considerar as especificidades de grupos historicamente marginalizados. Isso é ter consciência negra e é condição indispensável a todas as pessoas, principalmente as não negras.

Como pesquisadora na área de gênero, raça e saúde, o que o Dia da Consciência Negra representa para a comunidade baiana?

O dia 20 de novembro é um dia importante pela sua representatividade. Representa a luta do povo negro por condições mais dignas de vida. Nós sabemos que nossa luta é diária e não apenas em um dia específico do ano, mas é importante ter uma data que represente esse movimento de busca por conquistas na nossa sociedade. O importante é não deixar que essa data se torne folclorizada, no sentido pejorativo da palavra. Que empresas e instituições se utilizem dessa data com objetivo midiático, sem a devida consciência do que ela representa e sem intenção verdadeira de mudanças sociais. Nós somos negros o ano todo e não apenas em novembro!

Sabendo que a data é um momento de reflexão, combate ao racismo e ações afirmativas, o que o  NEGRAS  tem feito nesse sentido para inserir no dia-a-dia da comunidade acadêmica reflexões sobre esse tema, combate ao racismo e etc?

Um dos pontos fortes do NEGRAS são as ações extensionistas. Fazemos um trabalho que envolve não somente a comunidade acadêmica, mas a sociedade em geral. Um exemplo disso é o cine NEGRAS, uma atividade na qual discutimos temas relacionados ao enfrentamento ao racismo, sexismo, homofobia, etc. através de vídeos, documentários, filmes de longa e curta metragem, com a mediação de alguém com experiência no tema. Outro exemplo é curso de Relações Raciais e de Gênero que oferecemos no ano passado para estudantes da área de saúde, não somente da UFBA, mas de outras IES. Mas também realizamos pesquisa, como a que estamos finalizando agora sobre a implantação da Política Nacional de Saúde Integral da População Negra, para a qual produzimos videoaulas, e-book, cartilha, podcast com o objetivo de tornar público os nossos resultados para a sociedade, bem como formativo.

Na sua opinião, qual o papel da Universidade no combate ao racismo?

Faz parte do compromisso social da universidade promover uma formação profissional e cidadã que inclua reflexão, criticidade sobre como a sociedade brasileira está estruturada e da necessidade de atuarmos na perspectiva de transformação da realidade, para promovermos respeito aos direitos de todas as pessoas. Discutir sobre o racismo e como ele estrutura a sociedade é fundante para assunção desse compromisso. Não há como promover pesquisas com seres humanos, por exemplo, sem considerar quem são as pessoas envolvidas nessas investigações; não há como formar profissionais sem considerar a diversidade populacional e suas necessidades e características. A população negra é atravessada pelo racismo e a população negra é beneficiada por ele. Isso é um fato e precisa ser encarado.

Qual o maior desafio nos dias atuais para combater o racismo?

O racismo é como um camaleão que se modifica à medida que a sociedade avança de alguma forma para melhores condições sociais. A sociedade brasileira foi fundada na exploração de grupamentos humanos, como os negros escravizados e os índios, e situações e relações pautadas no racismo são naturalizadas. Então, acredito que o maior desafio é fazer as pessoas entenderem que essa é uma luta de todos e todas, inclusive daqueles privilegiados por essa estrutura racista. Se não compreendermos que a sociedade não se desenvolve quando parte dela, que no nosso caso não é minoria, vive em situação de vulnerabilidade, com seus direitos desrespeitados não cresceremos enquanto nação. Precisamos estar vigilantes frente às novas roupagens que essa “entidade” chamada racismo assume no dia-a-dia para conseguir estabelecer estratégias viáveis e resolutivas para miná-lo. 

Qual a importância do envolvimento dos profissionais da Nutrição na luta pela Consciência Negra?  

Os profissionais da nutrição são profissionais da saúde, responsáveis por estabelecer formas de assistência às pessoas acolhedoras, responsáveis. Enfrentar as iniquidades em saúde sofridas pelo povo negro é responsabilidade de todo profissional, inclusive nutricionistas. A nutrição, enquanto campo de conhecimento, precisa repensar seus instrumentos, indicadores, referenciais, pautados numa perspectiva eurocentrista que não responde às necessidades, modo de vida, corporalidade, etc. do povo negro. Não encarar isso é se distanciar da realidade, é fazer de conta.