Nutricionista baiana participa de missão internacional em Angola e compartilha experiência no cuidado a pacientes queimados

19/08/2026 - 11:08

A atuação da Nutrição ultrapassa fronteiras quando conhecimento, cooperação e compromisso com a saúde caminham juntos. Entre os dias 20 e 27 de julho, a nutricionista Cecília Fraga dos Santos Lemos participou de uma missão de cooperação técnica e humanitária em Luanda, Angola, por meio do Programa de Treinamento em Saúde Brasil-Angola.

A iniciativa integra o Projeto de Formação em Recursos Humanos para a Saúde (PFRHS), desenvolvido pelo Ministério da Saúde de Angola em parceria com o Governo Federal do Brasil. As ações são coordenadas pelo Ministério da Saúde, por meio da Secretaria de Gestão do Trabalho e da Educação na Saúde (SGTES), e pelo Ministério das Relações Exteriores, por meio da Agência Brasileira de Cooperação (ABC).

Nutricionista clínica e preceptora técnica da Secretaria da Saúde do Estado da Bahia (SESAB), com atuação no Centro de Tratamento de Queimados (CTQ) do Hospital Geral do Estado (HGE), Cecília integrou a equipe multidisciplinar escolhida para compartilhar a experiência brasileira no atendimento a pacientes queimados.

Durante a missão, a equipe realizou capacitações para profissionais de saúde, participou de visitas técnicas ao Hospital de Queimados Julius Nyerere — em fase de inauguração — e ao Hospital Geral Neves Bendinha, além de contribuir com discussões sobre a organização da linha de cuidado e estratégias de qualificação da assistência. A programação foi encerrada com o Seminário Nacional de Abordagem ao Paciente Queimado, que reuniu mais de 500 participantes e contou com transmissão on-line.

Em entrevista ao CRN-5, Cecília destaca a importância da Nutrição no cuidado ao paciente queimado, os desafios encontrados e os aprendizados da experiência internacional.

ENTREVISTA

1. Qual foi o seu papel como nutricionista na missão de cooperação técnica entre Brasil e Angola?

Meu papel como nutricionista nessa missão era transmitir os conhecimentos e a prática aplicada em nosso serviço no suporte nutricional aos pacientes queimados, de forma a garantir uma melhor evolução clínica e reabilitação.

2. Qual é a importância da terapia nutricional no cuidado ao paciente queimado e como ela impacta na recuperação?

A terapia nutricional é um dos pilares no cuidado do paciente queimado, que possui um hipermetabolismo desencadeado pelo trauma térmico, e necessita de um olhar diferenciado no aspecto nutricional. Desde a admissão até a alta hospitalar, é importante que o paciente queimado seja triado, avaliado e acompanhado por um nutricionista, seguindo uma linha de cuidado sistematizada, baseada em protocolos, evidências científicas e com uma visão humanizada, para que os impactos deste hipermetabolismo sejam minimizados e o paciente seja reabilitado da melhor forma, num menor tempo possível.

3. Quais foram os principais conhecimentos e práticas em Nutrição compartilhados com os profissionais de saúde em Angola?

O treinamento para o suporte nutricional do paciente queimado voltado aos profissionais de saúde de Angola incluiu desde uma revisão sobre a fisiopatologia do hipermetabolismo no queimado, seus riscos e complicações para o estado nutricional, passando por conceitos e técnicas de triagem e avaliação nutricional, sistematização da assistência nutricional e dimensionamento de pessoal, até as diretrizes da terapia nutricional no queimado, com atualização das referências existentes na literatura e exemplificação de modelos de protocolos assistenciais adotados pelo serviço de nutrição no CTQ-HGE como: triagem nutricional nas 24h da admissão, classificação do nível de assistência nutricional, introdução precoce da terapia nutricional, suplementação especializada e individualizada, abreviação do jejum, orientação nutricional na alta hospitalar e uso de indicadores de qualidade assistenciais.

4. Quais desafios relacionados à assistência nutricional aos pacientes queimados você identificou durante a missão?

O principal desafio identificado durante a missão foi relacionado a formação dos nutricionistas no país. Angola possui um reduzido número de profissionais nutricionistas especialistas para atuação na área hospitalar, especialmente no atendimento aos pacientes de média e alta complexidade do seu Sistema Nacional de Saúde (SNS).

A formação em licenciatura ainda é muito recente em Luanda e muitos profissionais nutricionistas precisam se deslocar para outros países em busca de especialização. Esse déficit de profissionais existente acaba gerando uma sobrecarga de trabalho para os profissionais que atuam em unidades de alta complexidade. 

5. Que aprendizados essa experiência internacional trouxe para a sua prática profissional e para a valorização da Nutrição?

Um dos maiores aprendizados que essa experiência me trouxe é de que todo conhecimento adquirido só é válido se for devidamente compartilhado, especialmente com os que mais necessitam dele. Foi emocionante ver o quão ávidos por conhecimento e troca de experiências os profissionais estavam, o quanto a equipe do governo angolano se empenhou em promover encontros para disseminação do conhecimento e em especial ver a valorização dada à Nutrição pela Ministra da Saúde Dra Sílvia Lutucuta em vários momentos durante a missão, entendendo o papel essencial desta profissão no cuidado em saúde da população.

Outro aprendizado importante foi da necessidade do fortalecimento da categoria profissional do nutricionista, através dos conselhos de classe, associações e sindicatos, visando garantir a presença deste profissional em número e capacitação adequadas, em todos os níveis de atenção à saúde da população, com direitos e deveres bem definidos.

6. Que mensagem você deixaria para nutricionistas que desejam atuar em projetos de cooperação internacional e fortalecer a profissão em diferentes contextos de saúde?

A participação em um projeto de cooperação técnica e humanitária internacional é uma experiência transformadora que oportuniza o conhecimento de diferentes realidades, a troca de experiências, vivências e a formação de um cidadão mais empático e consciente de seu papel social e político no mundo.

Para profissionais que desejam atuar em projetos como esse é primordial: uma boa preparação e capacitação técnica, com formação e qualificação em sua área de atuação; a busca por informações culturais, políticas e sociais do local ao qual será destinada a missão; bem como as orientações e diretrizes dos órgãos governamentais brasileiros que apoiam e coordenam projetos de cooperação internacional, como o Ministério da Saúde (MS) e o Ministério das Relações Exteriores (MRE), que asseguram ao profissional toda a logística e apoio local durante a missão.

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